"De maneira mais genérica, uma criatura onisciente nunca perderia seu tempo vendo um filme, uma vez que já conhece o final. Não existe cinema para Deus. E, por conseguinte, ele, que não obstante sabe tudo, não sabe o que está perdendo..."

Ollivier Pourriol, no livro Cine Filô.

Comentários da Cristina Faraon

Blá...blá... blá...

Árvore da vida

sexta-feira, 26 de agosto de 2011



Excelente... ou uma droga - tudo depende de como sua mente vai processá-lo. Depende do seu "eu espiritual" (seja lá o que isso seja).

Era para ser um filme edificante e direcionado a qualquer um. E é, mas a linguagem escolhida para transmitir a idéia é... digamos... enigmática demais.

Desconfio que raras pessoas vão gostar. Eu mesma só gostei porque já li o livro de Jó e quase pelo meio do filme consegui juntar uma coisa com outra.  Nem todos os cérebros no cinema seguiram a mesma linha. Deve ter sido por isso que ouvi umas reclamações e uns risos de deboche no cinema. Quando saí para pagar o estacionamento ouvi um rapaz dizer às amigas: "E eu pensava que só eu fosse doido! Ha ha ha" . Por aí você tira.

O diretor quis passar uma mensagem poderosa. Para isso, palavras seriam insuficientes. Sendo assim  ele lançou mão de imagens para nos fazer mergulharmos em nós mesmos e no nosso tal "eu espiritual".   Pra mim  valeu.

Se a idéia de Deus não é forte em você, se você não tem questões existenciais, se você não se faz perguntas inquietantes, então desista de ver o filme.

Tá, admito que estou me enrolando toda pra falar da história. É que é complicado!

Pra começar: o Brad Pitt já está enchendo o saco com essa mania de fazer papel de feio. Alguém tem que dizer a ele que personagem bonito também pode ser sério, pode ser profundo e pode render Oscar. Não gostei muito desse trabalho dele mas tudo bem. E todos os demais atores foram ótimos.

E a história? É sobre uma família "anos sessenta". Família tradicional, classe média e bem estruturada. O pai, chefão de família, é  trabalhador, sério, responsável, carinhoso mas... rígido demais. A educação em sua casa é ao estilo minitar e isso desencadeia uma pré-crise de adolescência em um de seus filhos. Ele vai se tornando rebelde, amargo, questionador e triste. Em dado momento ele odeia o próprio pai.

Pronto, é isso. Agora e a mensagem? Bem, é uma coisa tão subjetiva que o que eu entendi pode não ter nada a ver com o que o diretor quis dizer. Posso fazer um discurso inflamado sobre o filme  e no final o diretor se levantar e me perguntar: "Que filme é esse mesmo que você está falando? Não foi o que eu fiz não, né? Nada a ver!"

Pois é.

Eu acho/parece/tenho a impressão de que se trata da história de uma pessoa que trilha um longo e tortuoso caminho emocional até encontrar-se finalmente com Deus. Assim eu percebi. Se você entender o inverso não vou discutir. 

Repito: só entendi o filme porque já li o livro de Jó (Bíblia) e a história começa justamente com um trecho  que diz mais ou menos o seguinte (na minha linguagem pra lá de coloquial):

"Como é que é? Você quer mesmo que eu responda às suas perguntas? Vem cá, onde você estava mesmo quando eu criei os fundamentos da Terra?"

Essa primeira frase é a base de tudo. Outra frase fundamental eu li certa vez e fiquei matutando:

"Para encontrar Deus é necessário primeiro perdê-lo"

Cara, é isso! E o filme é isso.

Sussurros, imagens misturadas, simbolismos profundos, frases perdidas, nada parece ter um propósito. Contar uma história desse jeito é bem a propósito! 

Fiquei impactada por aquelas imagens de explosões, quedas d'água poderosas, infinito, galáxias, peixes, células... até entender que tudo aquilo remetia à idéia de Deus. Eram imagens metafóricas para nos levar a pensar no  indizível. O diretor não falou de Deus mas mostrou o que é a extrema beleza misturada ao medo absoluto; o que é a imensidão, o que é sentir-se um nada perdido no tudo, em meio a um turbilhão de acontecimentos e forças incontroláveis.  Como conversar com o cosmos, com o oceano, com o sol? Diante de tudo isso só nos resta dizer que "não está mais aqui quem falou". Dá medo olhar e se imaginar no meio de tudo aquilo. Incompreensível, imenso, indomável. Assim foi passada a idéia de Deus - e é assim que eu imagino, por isso me identifiquei com tudo. E gostei.

O medo só não nos vence porque a beleza nos acalenta em cascatas de deslumbramento.

Tudo a ver com Jó descobrindo o Divino depois de tanta coisa esquisita em sua vida. Ele precisou primeiro sofrer, questionar, se revoltar, querer morrer, querer matar, gritar que nada fazia sentido, brandir o punho, sentir ódio, achar que tudo é mentira.,. para só depois dar de cara com  o Amor Profundo.

Pra não me alongar demais - uma vez que o tema me empolga - completo dizendo como percebi as últimas cenas, aparentemente sem sentido:   encontrar Deus é também reencontrar-se consigo mesmo e fazer as pazes com o bebê que você foi, com a criança, o adolescente, o adulto, e abraçar todo mundo. É se pacificar, consigo e com o universo. É também reencontrar o jovem pai, o velho pai, a mãe em todas as idades e com os irmãos também em todas as idades e poder abraçá-los em paz com tudo resolvido, sem pendências. É perceber que todos os "despropósitos" tinham um propósitoe tudo foi bom. É reencontrar todo mundo que fez parte da sua história, todos, em um momento mágico, e perceber que por fim tudo era apenas um enigma amoroso.

Quem encontra Deus se encontra também consigo mesmo e faz as pazes com o universo.

Lindo. E estranho. Assim é o filme e assim é a nossa vida.

1 comentários:

Anônimo 22 de fevereiro de 2012 18:18  

acabamos de assistir, e estamos te achando a pessoa mais safa do mundo por ter decifrado desta maneira o enigma q é este filme!mto bom ler tua crítica depois de ver o filme...chega a ser esclarecedor..concordamos agora com a tua interpretação do filme...só lamentamos muuuuito o diretor ter feito isso tudo de uma maneira tão lenta e chata...resumindo, DETESTAMOS o filme..ahahaha..mas a crítica tá perfeita!bjos, Renan e Laise

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